QUANDO O PAÍS ARDE, ARDE TAMBÉM A NOSSA DIGNIDADE

22-05-2026


Naqueles dias quentes de julho de 2017, eu estava longe de imaginar o que se passava. Estava a dar formação, concentrado no trabalho, desligado do mundo, sem acesso a televisão. Foi só dias depois que a realidade me bateu à porta.

Lembro-me bem de chegar a casa e ligar a televisão sem qualquer expectativa. E, de repente, aquele choque. Fiquei ali, imóvel, quase um dia inteiro, a olhar para o ecrã, a tentar perceber.

O país estava a arder.

As imagens repetiam-se, umas atrás das outras, sempre mais duras, sempre mais difíceis de digerir. Casas consumidas, pessoas em fuga, rostos marcados pelo desespero.

E depois, o mais pesado de tudo: as mortes.

Dezenas de vidas perdidas. Histórias interrompidas de forma brutal. Um silêncio que, paradoxalmente, era cortado pelas sirenes que não paravam de ecoar.

Era impossível ficar indiferente. E, no entanto, havia também uma sensação estranha de déjà vu, como se aquilo não fosse completamente novo.

Meses depois, em outubro desse mesmo ano, voltou a acontecer. E aí já não havia surpresa, apenas um sentimento crescente de impotência.

Desde então, ano após ano, o cenário repete-se.

Já lá vão nove anos. Nove verões em que o país entra, quase automaticamente, em estado de calamidade.

Nove anos em que assistimos às mesmas imagens, às mesmas tragédias, às mesmas declarações.

Os bombeiros continuam a morrer.

Continuam a dar tudo, muitas vezes com meios insuficientes, numa luta desigual contra um problema que parece não ter fim.

E, ao mesmo tempo, continuam a gastar-se milhares de milhões.

Perdem-se empresas, desaparecem postos de trabalho, destrói-se riqueza que demorou anos a construir.

E a nossa biodiversidade, essa, vai sendo silenciosamente consumida, sem direito a manchetes prolongadas.

O mais difícil de aceitar é que as falhas são sempre as mesmas.

Não há propriamente novidade no erro. Há repetição.

Todos os anos se prometem mudanças.

Todos os anos se anunciam reformas, planos, estratégias.

E todos os anos voltamos ao mesmo ponto de partida.

É difícil não chamar as coisas pelos nomes.

Há uma sensação persistente de incompetência estrutural.

A nossa Proteção Civil começa a parecer-se com aqueles edifícios antigos que, apesar de outrora belíssimos, já não têm recuperação possível.

Podemos pintar, remendar, reforçar aqui e ali.

Mas, no fundo, a estrutura está comprometida.

E quando a base não é sólida, tudo o resto é apenas cosmética.

Chega de pequenas intervenções que não resolvem o problema.

Remodelar implica acreditar que há algo aproveitável.

E, honestamente, é legítimo questionar se ainda existe essa base.

Talvez seja altura de pensar de forma mais radical.

Arrasar e reconstruir de raiz.

Não por impulso, mas por necessidade.

Começando, desde logo, por afastar quem transformou a Proteção Civil num negócio.

Porque enquanto houver interesses instalados, dificilmente haverá mudança verdadeira.

Depois, construir uma estratégia séria, sustentada e de longo prazo.

Uma estratégia que não dependa de ciclos políticos nem de agendas momentâneas.

A profissionalização dos bombeiros é um ponto essencial.

Não se pode continuar a depender quase exclusivamente de voluntariado para responder a crises desta dimensão.

O INEM precisa igualmente de uma reestruturação profunda.

Não de ajustes pontuais, mas de uma revisão completa do seu funcionamento.

A formação tem de ser atual, exigente e contínua.

Não pode ser algo secundário num sistema que lida com vidas humanas.

E, claro, é urgente acabar com os "poleiros".

Com os cargos atribuídos por conveniência em vez de competência.

Porque, no fim do dia, o que está em causa é demasiado sério para jogos de bastidores.

Este ano tivemos um inverno chuvoso.

Isso significa mais vegetação, mais matéria acumulada nas florestas.

Uma espécie de combustível à espera de uma faísca.

E tudo indica que teremos um verão quente.

O que, inevitavelmente, aumenta o risco de incêndio para níveis muito elevados.

O cenário está montado.

E, infelizmente, não é difícil antecipar o que pode acontecer.

Mais uma vez, poderemos assistir ao mesmo espetáculo.

O país a arder.

E, nas chamadas "salas de situação", os mesmos de sempre.

Bem vestidos, bem instalados, a acompanhar tudo à distância.

Quase como espectadores.

Falta-lhes apenas a lira.


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