QUANDO A POLÍTICA PERDE A RAZÃO

20-03-2026


Tenho recebido centenas de mensagens nas últimas semanas. Pessoas que acompanham o meu trabalho perguntam-me, com alguma insistência, porque ainda não escrevi nada sobre os ataques ao Irão levados a cabo pelos Estados Unidos e por Israel. Confesso que compreendo a curiosidade — e até a expectativa.

A verdade, porém, é muito mais simples do que muitos imaginam.

Não escrevi porque, honestamente, não sei o que dizer.

Pode parecer estranho para quem passa grande parte do tempo a estudar, analisar e comentar política, geopolítica e ciência política. Quem me lê sabe que raramente me faltam interpretações, hipóteses ou ângulos de análise.

Mas desta vez é diferente.

Muito do que está a acontecer não cabe nas categorias habituais da política. Não encaixa nas teorias que usamos para explicar decisões de Estado, equilíbrios de poder ou estratégias internacionais.

É difícil enquadrar racionalmente algo que, à primeira vista, parece profundamente irracional.

Olho para os acontecimentos e vejo uma sequência de decisões que desafiam qualquer lógica estratégica minimamente consistente. Não vejo cálculo político sofisticado, nem uma visão de longo prazo.

Vejo antes uma mistura inquietante de impulsividade, irresponsabilidade e uma alarmante ausência de prudência.

A política internacional sempre teve momentos sombrios. A história está cheia de guerras, de erros graves e de decisões que hoje olhamos com perplexidade.

Mas mesmo nesses momentos, muitas vezes existia pelo menos uma lógica interna, por mais dura ou controversa que fosse.

Hoje, o que vemos parece escapar até a essa lógica mínima.

As atitudes do Presidente Donald Trump parecem, em muitos momentos, exigir mais análise psiquiátrica do que política. A forma como decisões de enorme impacto são comunicadas e justificadas levanta mais perguntas do que respostas.

Quanto a Benjamin Netanyahu, o lugar natural para muitas das suas decisões talvez não seja o debate político, mas antes os tribunais.

Nada disto se parece verdadeiramente com política.

Nada disto parece humano no sentido mais nobre da palavra.

E, acima de tudo, nada disto parece racional.

A política, no seu melhor, deveria ser um exercício de responsabilidade colectiva. Um espaço onde decisões difíceis são tomadas com consciência das suas consequências.

Aqui, porém, parece haver uma desconexão inquietante entre poder e responsabilidade.

Aquilo que mais me perturba não é apenas o conflito em si. Infelizmente, o mundo nunca esteve completamente livre de conflitos.

O que me inquieta verdadeiramente é a facilidade com que tudo isto aconteceu.

Como foi possível que duas figuras políticas conseguissem desencadear uma escalada militar com consequências globais sem uma justificação plausível?

As próprias agências norte-americanas afirmaram que o Irão não representava um risco iminente.

Mesmo assim, avançou-se.

E quase ninguém parece ter sido capaz de travar o processo.

Aqui surge a pergunta que verdadeiramente me assombra.

Como foi possível?

Como é que, no meio de sociedades que se orgulham do seu Estado de direito, das suas instituições democráticas e do seu nível de educação, permitimos que isto acontecesse?

Vivemos provavelmente na época com cidadãos mais informados da história.

Temos acesso imediato a informação, análises, relatórios e dados.

Mesmo assim, continuamos a assistir a decisões que parecem ignorar completamente esse conhecimento colectivo.

Onde estavam os mecanismos de contenção?

Onde estavam os alertas institucionais?

Onde estavam as vozes capazes de dizer simplesmente: isto não faz sentido?

Olho também para a reacção internacional e a perplexidade aumenta.

A União Europeia, tantas vezes apresentada como um bastião do multilateralismo e da diplomacia, parece incapaz de exercer uma influência real.

As Nações Unidas, por sua vez, continuam presas numa arquitectura institucional que muitas vezes as impede de agir quando mais seria necessário.

Os discursos sucedem-se, as declarações multiplicam-se, mas a realidade no terreno continua a evoluir sem grandes travões.

E, no meio de tudo isto, os cidadãos assistem.

Assistimos perplexos, frustrados e muitas vezes impotentes.

Talvez a parte mais inquietante seja precisamente essa sensação colectiva de impotência.

Sabemos que algo está profundamente errado, mas não sabemos exactamente onde falhou o sistema.

Foi nas instituições?

Foi nas lideranças?

Foi na forma como as democracias funcionam hoje?

Ou foi simplesmente na nossa própria capacidade de exigir responsabilidade?

A verdade é que, desta vez, não tenho uma teoria elegante para explicar o que está a acontecer.

Não tenho um modelo analítico convincente.

Não tenho sequer uma interpretação particularmente sofisticada.

Tenho apenas uma pergunta.

Uma pergunta simples, mas profundamente perturbadora.

Como foi possível?


👉 Para mais reflexões e análises, assine a newsletter da (DES) POLÍTICA no LinkedIn https://lnkd.in/dWPje5_Q e visite www.realpolitik.org.uk


#politica #geopolitica #relacoesinternacionais #democracia #analise #politicainternacional #mediooriente #segurancainternacional #lideranca #estrategia #conflitos #historia #opiniaopolitica #geoestrategia #cidadania #reflexao #atualidade #mundo #diplomacia #analiseglobal

Share