QUANDO A ESPERANÇA FALAVA MAIS ALTO DO QUE O MEDO

03-04-2026


Lembro-me bem do espanto que se sentia no final dos anos oitenta e no início dos anos noventa, quando o mundo parecia suspender a respiração para assistir a algo impensável poucos anos antes.

Ver, lado a lado, o Presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, e o líder da União Soviética, Mikhail Gorbachev, era mais do que um gesto diplomático; era um sinal de mudança profunda.

Margaret Thatcher surgia frequentemente em segundo plano, mas com uma presença que se impunha, firme e estratégica, porque, no fundo, era ela quem "manobrava nas sombras" tudo aquilo...

Aqueles encontros não eram meras fotografias para os jornais; eram símbolos de um tempo em que a razão parecia ganhar espaço ao medo.

Falava-se, finalmente, do fim de uma era marcada pela ameaça constante do holocausto nuclear e pela lógica da destruição mútua assegurada.

O mundo não estava em paz, é verdade, mas estava mais seguro, e isso fazia toda a diferença para milhões de pessoas.

A assinatura de tratados de limitação da proliferação nuclear representava um compromisso sério com a sobrevivência colectiva.

Havia a promessa, ainda que frágil, de reduzir e até eliminar armas de destruição massiva que nunca deveriam ter existido.

Esses dias foram, para muitos, dias de esperança, de confiança cautelosa num futuro menos sombrio.

A sensação de terror iminente começou a dissipar-se, substituída por uma expectativa prudente de cooperação.

Parecia possível acreditar que o diálogo podia vencer a confrontação, e que a política podia servir o bem comum.

No entanto, bastaram poucos anos para que grande parte desse trabalho paciente e dessas conquistas fosse sendo desfeito.

Hoje, o mundo apresenta-se mais extremado, mais polarizado, mais impaciente com a moderação e o compromisso.

Assistimos à ascensão de políticos que parecem servir sobretudo os seus próprios interesses.

O discurso público tornou-se agressivo, simplista e, muitas vezes, perigosamente irresponsável.

Vale tudo para ganhar atenção, votos ou poder, mesmo que isso fragilize instituições e sociedades inteiras.

Imperam a lei do mais forte, a lógica do confronto permanente e a glorificação do extremo.

Quem grita mais alto parece ter vantagem sobre quem argumenta melhor.

Quem divide colhe mais aplausos do que quem tenta unir.

Neste ambiente, a cooperação internacional é vista com desconfiança e o multilateralismo é tratado como fraqueza.

O que antes era consenso mínimo para a segurança global passou a ser questionado sem pudor.

Tratados são rasgados, acordos são abandonados e a retórica belicista volta a ganhar espaço.

O mundo, em vez de evoluir, parece regredir a passos largos.

É profundamente triste assistir a esta inversão de valores e prioridades.

Sobretudo para quem viveu, ou estudou, um período em que a política parecia capaz de conter os piores impulsos humanos.

Não se trata de nostalgia ingénua, mas de memória crítica.

A memória de que já fomos capazes de fazer melhor, mesmo em contextos de enorme tensão.

Talvez seja tempo de reaprender essa lição e exigir mais de quem nos governa.

Porque a esperança não é um luxo do passado; é uma responsabilidade do presente.


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