QUANDO A ESPERANÇA FALAVA MAIS ALTO DO QUE O MEDO

Lembro-me bem do espanto que se sentia no final dos anos oitenta e no início dos anos noventa, quando o mundo parecia suspender a respiração para assistir a algo impensável poucos anos antes.
Ver, lado a lado, o Presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, e o líder da União Soviética, Mikhail Gorbachev, era mais do que um gesto diplomático; era um sinal de mudança profunda.
Margaret Thatcher surgia frequentemente em segundo plano, mas com uma presença que se impunha, firme e estratégica, porque, no fundo, era ela quem "manobrava nas sombras" tudo aquilo...
Aqueles encontros não eram meras fotografias para os jornais; eram símbolos de um tempo em que a razão parecia ganhar espaço ao medo.
Falava-se, finalmente, do fim de uma era marcada pela ameaça constante do holocausto nuclear e pela lógica da destruição mútua assegurada.
O mundo não estava em paz, é verdade, mas estava mais seguro, e isso fazia toda a diferença para milhões de pessoas.
A assinatura de tratados de limitação da proliferação nuclear representava um compromisso sério com a sobrevivência colectiva.
Havia a promessa, ainda que frágil, de reduzir e até eliminar armas de destruição massiva que nunca deveriam ter existido.
Esses dias foram, para muitos, dias de esperança, de confiança cautelosa num futuro menos sombrio.
A sensação de terror iminente começou a dissipar-se, substituída por uma expectativa prudente de cooperação.
Parecia possível acreditar que o diálogo podia vencer a confrontação, e que a política podia servir o bem comum.
No entanto, bastaram poucos anos para que grande parte desse trabalho paciente e dessas conquistas fosse sendo desfeito.
Hoje, o mundo apresenta-se mais extremado, mais polarizado, mais impaciente com a moderação e o compromisso.
Assistimos à ascensão de políticos que parecem servir sobretudo os seus próprios interesses.
O discurso público tornou-se agressivo, simplista e, muitas vezes, perigosamente irresponsável.
Vale tudo para ganhar atenção, votos ou poder, mesmo que isso fragilize instituições e sociedades inteiras.
Imperam a lei do mais forte, a lógica do confronto permanente e a glorificação do extremo.
Quem grita mais alto parece ter vantagem sobre quem argumenta melhor.
Quem divide colhe mais aplausos do que quem tenta unir.
Neste ambiente, a cooperação internacional é vista com desconfiança e o multilateralismo é tratado como fraqueza.
O que antes era consenso mínimo para a segurança global passou a ser questionado sem pudor.
Tratados são rasgados, acordos são abandonados e a retórica belicista volta a ganhar espaço.
O mundo, em vez de evoluir, parece regredir a passos largos.
É profundamente triste assistir a esta inversão de valores e prioridades.
Sobretudo para quem viveu, ou estudou, um período em que a política parecia capaz de conter os piores impulsos humanos.
Não se trata de nostalgia ingénua, mas de memória crítica.
A memória de que já fomos capazes de fazer melhor, mesmo em contextos de enorme tensão.
Talvez seja tempo de reaprender essa lição e exigir mais de quem nos governa.
Porque a esperança não é um luxo do passado; é uma responsabilidade do presente.
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