O QUE ESTAMOS A FAZER AOS NOSSOS FILHOS?

Escrevo todos os dias. Nem sempre com respostas, muitas vezes com dúvidas, quase sempre com inquietações. Escrevo sobre política, sim, mas não só. Escrevo sobre aquilo que nos atravessa, que nos une e que, por vezes, nos divide de forma quase irreconciliável.
Escrevo sobre os problemas que nos tiram o sono, mas também sobre aquilo que ainda nos permite respirar com alguma esperança. Porque, no meio de tanto ruído, continuam a existir pequenos sinais de humanidade que valem a pena ser registados.
No fundo, escrevo sobre nós. Sobre aquilo que somos — e sobre aquilo que estamos a deixar de ser.
É um exercício contínuo de olhar com atenção. De tentar perceber o que está mesmo à frente dos olhos, mas que tantas vezes escolhemos não ver.
Há dias em que tudo parece seguir um curso previsível. E depois há momentos em que uma simples frase muda tudo.
Uma frase dita quase de passagem, sem dramatismo, sem intenção de criar impacto… mas que acerta com uma precisão desconcertante.
Foi isso que me aconteceu quando ouvi o realizador Thomas Andersen, no momento em que recebia o seu Óscar, dizer algo que, à primeira vista, parecia apenas mais uma reflexão (já escrevi um texto sobre isso).
Mas não era.
Fiquei verdadeiramente abalado. Não por exagero, nem por tendência para o pessimismo, mas porque ali estava uma verdade demasiado grande para ser ignorada.
Uma verdade simples — e talvez por isso tão perigosa.
Pela primeira vez em cerca de dois milhões e meio de anos de história humana, existe a possibilidade real de a próxima geração viver pior do que a anterior.
Dito assim, parece quase um detalhe estatístico. Mas não é.
É uma ruptura profunda com tudo aquilo que sempre demos como garantido.
Crescemos com a ideia de que o progresso era inevitável. Que, com esforço, com conhecimento e com tempo, o mundo tenderia sempre a melhorar.
Era quase uma lei não escrita da humanidade.
Hoje, essa certeza começa a desfazer-se.
E isso deveria inquietar-nos muito mais do que inquieta.
Porque, se olharmos à nossa volta, percebemos um paradoxo difícil de ignorar.
Nunca tivemos tanto. Nunca soubemos tanto. Nunca fomos capazes de fazer tanto.
Vivemos rodeados de avanços científicos que, há poucas décadas, seriam considerados milagres.
Criámos tecnologias que desafiam os limites do imaginável.
Construímos sistemas complexos, rápidos, eficientes — quase perfeitos, diríamos.
E, no entanto, há qualquer coisa que não bate certo.
Há um desconforto silencioso que cresce, mesmo no meio de tanta inovação.
Talvez porque, no meio de tudo isto, fomos perdendo alguma lucidez.
Talvez porque começámos a confundir capacidade com sabedoria.
Ou progresso com sentido.
Há um certo orgulho desmedido na forma como olhamos para aquilo que construímos.
Como se estivéssemos acima das consequências.
Como se a história não nos tivesse já ensinado o suficiente.
Lembro-me muitas vezes da imagem de Narciso.
Encantado com o seu reflexo, incapaz de se afastar, até ao ponto de se perder completamente.
Há algo de perigosamente semelhante na forma como hoje nos vemos ao espelho do progresso.
Admiramos o que criámos — e esquecemo-nos de questionar para quê.
E talvez seja precisamente aqui que começa o problema.
Porque quando deixamos de fazer perguntas difíceis, abrimos espaço para respostas fáceis.
E as respostas fáceis raramente são as certas.
É por isso que, talvez, tenha chegado o momento de fazer algo que a política raramente faz.
E que a história quase nunca regista.
Assumir responsabilidade.
Sem rodeios, sem desculpas sofisticadas, sem jogos de linguagem.
Talvez seja tempo de dizer, com clareza, aquilo que custa dizer.
Falhámos.
Falhámos na forma como gerimos o presente.
Falhámos na forma como imaginámos o futuro.
E, sobretudo, falhámos com aqueles que vêm a seguir.
Os nossos filhos.
A geração que deveria herdar mais do que recebeu.
A geração que deveria ir mais longe, com mais condições, mais estabilidade, mais horizonte.
E que, hoje, corre o risco de receber menos.
Não por falta de meios.
Mas por falta de lucidez.
Por excesso de complacência.
Por uma certa cegueira colectiva que preferiu o conforto imediato à responsabilidade de longo prazo.
E isto custa admitir.
Mas custa ainda mais ignorar.
Porque, se nada mudar, poderemos vir a ser lembrados de uma forma pouco honrosa.
Como a geração que, tendo tudo nas mãos, escolheu não fazer o suficiente.
Como a geração que confundiu avanço com progresso.
E que, no fim, deixou um mundo mais frágil do que aquele que encontrou.
Não é uma acusação leve.
Mas é, cada vez mais, uma hipótese real.
E talvez ainda estejamos a tempo de a contrariar.
Mas isso exige mais do que discursos.
Exige consciência.
Exige coragem.
E, acima de tudo, exige humildade.
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