O POPULISMO QUE VESTE GRAVATA: A ILUSÃO QUE CORRÓI A DEMOCRACIA

09-01-2026


Muitas vezes, quando se fala em populismo, a mente corre de imediato para aquelas figuras de discursos inflamados, que prometem o paraíso em dois tempos, que agitam multidões com frases de efeito e slogans fáceis. São esses que aparecem mais nas notícias, que protagonizam debates acesos e que se apresentam como salvadores improváveis.

São os rostos mais visíveis do fenómeno, é certo, e por isso também os mais fáceis de identificar. Tornaram-se quase caricaturas de si mesmos, símbolos de um estilo político que mistura teatro e promessa vã.

Mas talvez não sejam, afinal, os mais perigosos.

O populismo mais nocivo não se grita nas praças públicas nem se apresenta com bandeiras berrantes. Ele sussurra nos corredores do poder, de fato e gravata, ostentando uma moderação cuidadosamente ensaiada.

Esse populismo sorrateiro, envolto na aparência de responsabilidade e legitimado pelo peso das instituições, consegue infiltrar-se na política com muito menos resistência.

Não aparece como ameaça, mas como continuidade.

E por isso, quando nos apercebemos, já está a corroer o essencial.

É um populismo que se mascara de "consenso", que se apresenta como "gestão séria" e que se protege com o selo de "democrata". Mas no fundo, limita-se a perpetuar um vazio, alimentando a descrença dos cidadãos.

A sua consequência é devastadora: o descrédito cada vez maior da política como espaço de serviço público. Uma erosão lenta, quase impercetível, mas constante.

Durante décadas, multiplicaram-se promessas que nunca saíram do papel. Planos brilhantes, anunciados com pompa, que se perderam no labirinto das burocracias ou foram abandonados ao sabor das circunstâncias.

E, em paralelo, soluções que mais pareciam paliativos, ineficazes e incapazes de responder às necessidades reais das pessoas. Tudo embrulhado em discursos bonitos, alinhados com a tendência do momento, mas cada vez mais desligados da vida concreta de quem trabalha, estuda e luta para viver com dignidade.

Esse desfasamento gera frustração, desilusão e, inevitavelmente, afastamento. O eleitor começa a desconfiar, a desligar-se, a perder a crença de que a política pode fazer a diferença.

E quando esse afastamento se torna generalizado, o vazio não fica por preencher. Abre-se espaço para que outros, com agendas perigosas ou simplesmente oportunistas, se insinuem e ocupem o lugar.

Não é apenas o cidadão comum que se afasta. Também os melhores se afastam. Homens e mulheres capazes, preparados, com verdadeiro sentido de missão, acabam por recusar o convite para participar num espaço que lhes parece viciado, dominado por jogos de poder e pelo tal populismo envernizado.

E assim, a política vai-se empobrecendo, deixando-se capturar por quem sabe jogar o jogo da aparência, mas não o da substância.

A política, no entanto, não é isto. A política somos nós. A causa pública é, por definição, de todos, exige de todos, responsabiliza todos.

Quando o discurso político se reduz a marketing, a manipulação emocional ou à gestão de imagem, não só se trai a essência da democracia como se destrói o próprio tecido social.

O populismo disfarçado é o mais traiçoeiro porque não o vemos de imediato. Ele não grita, não escandaliza. Ele insinua-se. Legitima-se pelo cargo, pela instituição, pela liturgia do poder.

É uma infiltração silenciosa. Como uma humidade que começa num canto de um edifício aparentemente sólido e, sem darmos conta, alastra até enfraquecer toda a estrutura.

O mais grave é que vamos tolerando.

Habituamo-nos às meias-verdades, à gestão de expectativas, ao "é o que é".

Aceitamos como normal o incumprimento das promessas, como se fosse inevitável.

Mas não é inevitável. É fruto de escolhas, de prioridades, de uma cultura política que se foi moldando ao cálculo eleitoral em vez da responsabilidade perante os cidadãos.

E é aqui que temos de parar e refletir. Porque, como disse Platão, "o castigo de quem não gosta de política é ser governado por quem gosta".

Se deixarmos a política entregue apenas a quem a usa como trampolim pessoal ou palco de vaidade, não podemos surpreender-nos com o estado a que chegámos.

A responsabilidade não é só deles. É também nossa. Somos nós que permitimos, que fechamos os olhos, que relativizamos.

Está nas nossas mãos exigir mais — mais verdade, mais coragem, mais autenticidade. E isso começa por não nos conformarmos com a mediocridade instalada.

A política não precisa de novos messias. Não precisa de salvadores da pátria que prometem milagres.

Precisa de servidores! Pessoas que, com humildade e firmeza, compreendem que a sua função é servir a comunidade e não servir-se dela.

Infelizmente, esses servidores são cada vez mais raros. Não porque não existam, mas porque o próprio sistema os afasta. E é aqui que o ciclo tem de ser quebrado.

É preciso criar condições para que o mérito e o serviço voltem a ser valorizados. Para que os melhores se sintam motivados a entrar. Para que a política deixe de ser vista como um jogo de interesses e volte a ser entendida como missão.

Só assim será possível recuperar a confiança. Só assim a política poderá voltar a ser o que deveria ser: a arte de construir um futuro comum, com justiça, dignidade e verdade.

Não podemos deixar que o populismo sorrateiro, o que veste gravata e fala de moderação, continue a corroer a essência democrática.

Temos de desmascará-lo, enfrentá-lo e substituí-lo por uma política que assuma sem medo o seu propósito maior.

Porque no fim, a democracia é tão forte quanto a nossa exigência.

E se não exigirmos mais, resignamo-nos a menos.

O futuro não se constrói com milagreiros, mas com servidores.

E só quando soubermos distingui-los, e sobretudo escolhê-los, é que poderemos devolver à política o seu verdadeiro valor.


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