LIBERDADE: ENTRE O QUE CELEBRAMOS E O QUE REALMENTE VIVEMOS

24-04-2026


Amanhã assinalam-se 52 anos sobre o 25 de Abril. Uma data que, para muitos, permanece sagrada, quase intocável, carregada de simbolismo e emoção. É o dia em que Portugal se reencontrou consigo mesmo, ou pelo menos assim gostamos de acreditar.

Recordamos os cravos, os rostos jovens nas ruas, a esperança quase palpável no ar. Recordamos a coragem de quem ousou mudar o rumo de um país inteiro. E, nesse exercício de memória coletiva, reafirmamos um valor que se tornou central: a liberdade.

Mas há uma pergunta que, por desconfortável que seja, não pode ser ignorada. Mais importante do que a liberdade enquanto ideia — enquanto conceito quase abstrato — é aquilo que fizemos com ela ao longo destes 52 anos.

É aqui que o tema se torna menos celebratório e mais exigente. Porque a liberdade, por si só, não garante progresso, nem justiça, nem dignidade. Ela é apenas o ponto de partida.

Ao longo de mais de meio século, Portugal teve nas mãos a possibilidade de se reinventar. De construir um país mais justo, mais eficiente, mais próspero. E, no entanto, é legítimo perguntar: até que ponto o conseguimos?

Amanhã, como em tantos anos anteriores, veremos discursos inflamados. Veremos cravos ao peito, palavras bonitas, promessas renovadas. A liberdade será proclamada com entusiasmo, quase como um ritual.

Mas entre o discurso e a realidade há, muitas vezes, uma distância difícil de ignorar.

Porque um povo verdadeiramente livre não se mede apenas pela ausência de censura ou pela existência de eleições. Mede-se pela qualidade de vida que consegue garantir aos seus cidadãos.

E aqui começam as dúvidas. Um país onde, dia após dia, tantas pessoas sentem que vivem pior do que no passado recente pode considerar-se plenamente livre?

A liberdade esvazia-se quando não é acompanhada de condições concretas de vida. Quando o esforço diário não se traduz em estabilidade, em segurança, em futuro.

Olhemos para o Estado. Um Estado que, em teoria, existe para servir os cidadãos. Mas que, na prática, tantas vezes falha nas funções mais básicas.

Na saúde, vemos hospitais sobrelotados, profissionais exaustos, doentes que aguardam meses — por vezes anos — por respostas que deveriam ser imediatas.

Na educação, assistimos a escolas sem professores suficientes, a alunos sem continuidade pedagógica, a um sistema que parece sobreviver mais por resistência do que por estratégia.

Na justiça, o cenário é igualmente preocupante. Processos que se arrastam durante décadas corroem a confiança nas instituições e alimentam a sensação de impunidade.

E depois há a questão fiscal. Um tema sensível, mas incontornável.

Os portugueses suportam uma carga fiscal elevada. Trabalham, produzem, contribuem. Mas, em muitos casos, não sentem o retorno desse esforço.

A perceção de injustiça instala-se quando o sacrifício não se traduz em serviços públicos de qualidade. Quando o dinheiro parece desaparecer num sistema pouco transparente e pouco eficiente.

Tudo isto levanta uma questão essencial: até que ponto a liberdade é plena quando o cidadão se sente constantemente limitado na sua vida quotidiana?

A liberdade não é apenas poder falar. É poder viver com dignidade.

É poder aceder a cuidados de saúde em tempo útil. É garantir uma educação de qualidade para os filhos. É confiar que a justiça funciona.

É também sentir que o esforço individual tem recompensa, que há mobilidade social, que o futuro não está permanentemente em suspenso.

E, inevitavelmente, chegamos à classe política.

Uma classe que deveria ser exemplo, referência, motor de transformação. Mas que, aos olhos de muitos, tem vindo a degradar-se de forma preocupante.

Casos de corrupção, incompetência, falta de visão. Tudo isto contribui para um afastamento crescente entre governantes e governados.

A política, que deveria ser nobre, tornou-se, em demasiadas ocasiões, um espaço de oportunismo e mediocridade.

E quando a confiança desaparece, a democracia fragiliza-se. Porque a liberdade depende, em grande medida, da qualidade das instituições que a sustentam.

Não se trata de negar os avanços conquistados desde 1974. Seria injusto fazê-lo.

Portugal mudou muito. Em muitos aspetos, para melhor. Mas reconhecer o progresso não deve impedir uma análise crítica do presente.

Celebrar Abril não pode ser apenas um exercício de nostalgia. Tem de ser também um momento de reflexão honesta.

O que fizemos bem? O que falhámos? E, sobretudo, o que estamos dispostos a corrigir?

Porque a liberdade não é um ponto de chegada. É um processo contínuo, exigente, que obriga a vigilância e responsabilidade.

Amanhã será, sem dúvida, o dia da Liberdade.

Mas deveria ser também o dia da consciência.

Consciência de que a liberdade que herdámos não é garantida para sempre. E, sobretudo, de que ela só faz sentido se for vivida de forma plena por todos.

Talvez o verdadeiro tributo ao 25 de Abril não esteja nas palavras que se dizem, mas nas mudanças que se fazem.

Porque, no fim, a questão mantém-se simples — e profundamente incómoda: que país queremos ser, depois de 52 anos de liberdade?


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