GUERRA MUNDIAL: MANIPULAÇÃO OU REALIDADE?

12-01-2024

Todos conhecemos muito bem o orgulho americano.

Eles, nisso, são imbatíveis.

Acham-se a melhor e a maior nação do mundo.

Embora estejam, desde 1945, a tentar "fazer a América grande de novo" (pelo menos é o mote de todas as campanhas desde essa época), acham-se e veem-se como a maior nação do mundo, os guias e os garantes do "mundo livre".

A gigantesca máquina de propaganda que é Hollywood ajuda e alimenta muito a manutenção dessa mística, seja no contexto interno, seja no contexto externo.

E muito desse orgulho passa por se verem como a maior potência militar do mundo.

Embora nunca tenham vencido uma guerra sozinhos, embora tenham perdido todos os conflitos em que se envolveram desde o fim da IIª guerra mundial (e foram muitos: da Coreia ao Vietnam, do Iraque ao Afeganistão), os americanos acham que são a maior potencial militar global.

E, para isso, dedicam uma parte exorbitante do seu orçamento todos os anos para gastar nas suas forças armadas.

Ora, com a política interna num caos absoluto, sem conseguir cumprir nenhuma das suas promessas eleitorais, preso a um sistema político que se paralisa a si próprio, cada vez mais extremado, dividido e sem soluções de futuro, Joe Biden não tem alternativa senão de criar distrações populistas para iludir o seu povo do pandemónio em que está afogado.

E, desde Maquiavel, sabemos que não há melhor distração que o medo.

E não há maior medo para o "americano comum" que a expansão do grande inimigo de sempre: a Rússia.

É, assim, a combinação perfeita.

Por isso, Joe Biden tentou, numa declaração cheia de pompa e circunstância, rodeado do seu núcleo duro, mostrando que não se basta a si próprio para convencer ninguém, o que pensava ele ser uma jogada de mestre: afirmar que se a Rússia vencer a guerra na Ucrânia, logo de seguida, atacará um país da OTAN/NATO, o que obrigaria à "ativação" do artigo 5º da Aliança (que estabelece que um ataque a um Estado membro é assumido como um ataque a todos os Estados da Aliança) o que geraria, obviamente, a IIIª guerra mundial (medo "alimentado" nos Estados Unidos desde a época de Roosevelt e que manteve a "Guerra Fria" durante 50 anos).

Biden tentava, assim, tanto desbloquear o veto republicano à continuidade da ajuda militar à Ucrânia como também galvanizar o público pelo medo quase crónico dos americanos aos russos.

E aqui se coloca a questão?

Biden tem razão?

Não! Não tem!

E vou explicar porquê!

Primeiro porque Putin, com o conflito da Ucrânia "somente" quer garantir o que, de facto, tem de garantir: o acesso ao Mar Negro.

Sempre foi essa razão e continua a ser.

A Rússia não pode permitir que a OTAN/NATO (entenda-se, em realpolitik, os Estados Unidos) domine o mar Azov e a Crimeia, sob pena de ficar completamente dependente dos americanos em relação a mais de 90% das suas importações e exportações.

Porque a Rússia é completamente dependente da chamada "Rota do Sul", como já expliquei num texto do Blog Realpolitik, devido ao acesso ao Mediterrâneo, logo ao Oceano Atlântico, mas, fundamental e principalmente ao canal do Suez, que, se mais não for, lhe dá acesso rápido e direto ao seu grande parceiro, aliado e maior fornecedor/consumidor: a República Popular da China.

A "rota do Norte" para além de aumentar para mais do dobro a distância a percorrer pelas mercadorias, está interdita quase 6 meses por ano devido ao gelo.

Por isso quando Pedro, o Grande, o Czar que tirou a Rússia da profunda idade das trevas onde estava instalada desde Ivan, o Terrível, o primeiro Czar de todas as Rússias, e, para isso, entendeu que a Rússia tinha que ter uma frota, tanto de guerra, como mercante, a primeira coisa que fez foi conquistar a Crimeia e toda a região do Donbass. E isto foi no século XVII.

Quando Catarina, a Grande, quis expandir o poderio russo, expandiu e desenvolveu exatamente a mesma região. Isto já no século XVIII.

No século XIX, o confronto geoestratégico entre a Rússia regida pelo Czar Nicolau I, e a coligação do Império Otomano, com o Império Britânico da Augusta Rainha Vitória e a França de Napoleão II, deu origem à famosíssima e quase lendária "Guerra da Crimeia" onde aconteceu a não menos famosa "carga da brigada ligeira" na Batalha de Balaclava, imortalizada em poema por Alfred Tennyson e depois em música por Franz Von Suppé.

Durante o século XX a Crimeia esteve sob o domínio soviético sendo a base da imponente Frota do Mar Negro, o orgulho da Armada Soviética.

Com queda da URSS, um acordo tácito, a que muitos chamam o "Memorando de Budapeste", de 1994, atribuía a Crimeia e os territórios do Donbass administrativamente à Ucrânia, mas sob domínio e gestão exclusivamente Russa.

E assim foi até 2014 com a declaração da Ucrânia, depois da "Revolução da Praça Maidan", que queria aderir à OTAN/NATO.

Este longo, mas, na minha opinião, importante, périplo histórico, demonstra, claramente, que é impensável, desde há séculos, tanto do ponto de vista da política externa assim como de sustentabilidade da soberania do país, Moscovo perder o controlo, seja para quem for, do território e, em especial dos portos, de que depende quase toda a economia, logo a sobrevivência, da Rússia.

Assim, se não podemos concordar com Putin nos meios, temos de concordar com os motivos.


Em segundo porque Putin não tem nenhuma intenção expansionista.

O seu objetivo é dominar a Rússia com mão de ferro e garantir a sua integridade territorial e, logo, a sua sobrevivência e eternização no poder.

Como homem muito inteligente que é (porque temos que admitir que é) sabe que a Rússia não teria meios para uma expansão além-fronteiras.

Não só não teria meios como não teria interesse.

A URSS era diferente: tinha um propósito expansionista porque tinha uma obrigação ideológica: "libertar o proletariado de todo o mundo, criar uma sociedade global comunista onde não houvesse amos para além da vontade popular". Assim se cantava na "Internacional", assim era a doutrina que dava razão e sentido à União Soviética e que a mantinha coesa e legitimava o próprio poder do Partido Comunista Soviético.

Ora: a única ideologia de Putin é a sua manutenção no poder para permitir aumentar a sua fortuna, em primeiro lugar, e, depois a dos oligarcas que o mantém no poder também.

Porque Putin sabe que quando os oligarcas não estiverem satisfeitos ou perderem o interesse na sua permanência no poder, os seus dias de glória estão acabados.

Manter a estabilidade e a satisfação do "Clã da Sampetersburgo" é o objetivo único.

Mais nada!

E, para isso, a expansão não interessa porque, nos países vizinhos, não há nada que, de facto e do ponto de vista financeiro, valha muito a pena.

E se não vale a pena, não se faz.

Em terceiro: não nos podemos esquecer que Putin tem 71 anos e sabe que não é eterno.

Também não se denota, antes pelo contrário, que queira criar uma sucessão familiar.

Afinal, ninguém da sua família faz parte do círculo do poder, nem de círculo nenhum, diga-se.

A separação que Putin faz da sua vida pública da sua intimidade pessoal é radical e incontestável. Ora, um homem com 71 anos, sendo um dos mais ricos (senão o mais rico) homens do mundo, deve querer ter tempo e algum sossego para aproveitar um pouco da sua "velhice" e tratar da sua sucessão.

Porque se é notório, como já disse, que não quererá passar o poder para ninguém da sua família, por certo quererá garantir que a sua fortuna e património não estarão em risco depois da sua morte.

Para isso precisa de garantir que quem o suceder é da sua confiança e não tentará "deserdar" os seus filhos (acha-se que são 4) do seu imenso património (que em 2017 foi avaliado 200 mil milhões de dólares, mas que é, obviamente, superior).

Por isso não há nenhuma razão, antes pelo contrário, de Putin querer uma expansão nem tão pouco envolver-se numa guerra com nenhum país da OTAN/NATO.

Por ele esta guerra com a Ucrânia nem tinha acontecido e, quando se tornou inevitável, teria sido resolvida em 3 semanas.

Não foi assim e por isso todo este desgaste para o próprio Putin, a sua desilusão com as suas próprias Forças Armadas, o aumento da pressão interna, etc, etc..

Convençam-se disto: O primeiro a querer o fim da guerra na Ucrânia é Vladimir Putin.

Só não pode perder o acesso ao Mar Negro.

Por isso não há razão nenhuma para o "alerta" de Joe Biden para além de assuntos estritamente internos norte-americanos.

Mais uma vez os Estados Unidos estão a tentar resolver com política externa o que não conseguem ou falham estrondosamente na política interna.

E só se prevê um agravamento.

Desconfio que a "ameaça do grande satã russo" será o mote da campanha de reeleição de Biden.

Porque, simplesmente, ele não tem mais nenhum….


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