EUA/VENEZUELA/IRÃO: QUANDO A BOA NOTÍCIA PODE SER O INÍCIO DE UMA TEMPESTADE

A instabilidade no Irão e a eventual queda de um regime teocrático, opressor e profundamente implicado na exportação de terrorismo de inspiração xiita são, à primeira vista, motivo para alívio.
Durante décadas, esse regime construiu um poder assente na repressão interna, na hostilidade externa e numa leitura instrumental da religião ao serviço de uma agenda política agressiva.
Para muitos observadores, a simples ideia de um Irão libertado desse jugo parece anunciar um novo ciclo histórico. Um ciclo mais aberto, mais racional e potencialmente mais integrado na comunidade internacional. Um ciclo onde o povo iraniano poderia, finalmente, respirar fora da lógica do medo permanente.
No entanto, a geopolítica raramente oferece vitórias simples!
O que parece uma boa notícia num plano moral ou político pode esconder consequências económicas de grande magnitude, capazes de desestabilizar equilíbrios já frágeis à escala global.
Se juntarmos a este cenário uma eventual queda do regime de Maduro na Venezuela, entramos num território ainda mais delicado.
Falamos de dois países que, em conjunto, detêm algumas das maiores reservas de petróleo do planeta, hoje fortemente condicionadas por sanções internacionais.
A libertação simultânea destas duas potências petrolíferas significaria a entrada, no mercado regulado, de vários milhões de barris de crude por dia. Um choque de oferta desta dimensão teria efeitos quase imediatos nos preços internacionais do petróleo.
Para o consumidor comum, o impacto seria claramente positivo. Combustíveis mais baratos significam menos pressão sobre os orçamentos familiares, maior poder de compra e algum alívio num contexto de inflação persistente.
À superfície, seria uma excelente notícia!
Mas a economia global não vive apenas de consumidores. Vive também — e em larga medida — de Estados cujas receitas públicas dependem fortemente da exportação de petróleo e gás. E é aqui que o cenário se torna perigosamente instável.
Países como a Rússia, o Brasil, a Venezuela, Angola, a Nigéria, a Argélia, o Canadá, o Reino Unido e até os Estados Unidos da América sentiriam o impacto de forma severa. Em alguns casos, o efeito seria simplesmente negativo. Noutros, poderia ser devastador.
Uma queda acentuada do preço do crude traduzir-se-ia numa redução brutal das receitas fiscais, em défices orçamentais difíceis de conter e em cortes forçados no investimento público. Falamos de perdas de muitos milhares de milhões e de quebras no PIB que poderiam ultrapassar os 2 ou mesmo os 3%.
Em economias já fragilizadas, este choque seria suficiente para empurrar sistemas inteiros para a beira da rutura. Em economias mais robustas, criaria tensões sociais e políticas que não devem ser subestimadas.
O risco maior, como tantas vezes na história económica, é o chamado efeito dominó. A queda de uma grande economia exportadora de energia arrasta mercados financeiros, desvaloriza moedas, pressiona sistemas bancários e acaba por contaminar economias que, à partida, pareceriam seguras.
Num mundo altamente interligado, ninguém cai sozinho!
As cadeias de valor globais amplificam choques e transformam problemas locais em crises sistémicas.
Foi assim em 2008, foi assim durante a pandemia e poderá voltar a sê-lo.
Por isso, a eventual estabilização do Irão — seja lá em que moldes políticos vier a ocorrer — exige uma gestão extremamente cuidadosa do fator energético.
Não basta celebrar a queda de um regime; é preciso preparar o dia seguinte!
Há uma linha ténue entre uma descida saudável do preço dos combustíveis e um colapso de mercados inteiros. A primeira gera liquidez nas famílias, estimula o consumo e dá fôlego às economias. A segunda destrói receitas, empregos e estabilidade social.
A tentação de "deixar o mercado funcionar" pode ser grande, mas a história mostra que os mercados, sem coordenação política, tendem a exagerar tanto na euforia como no pânico.
Será fundamental uma articulação inteligente entre grandes produtores, organismos internacionais e potências económicas. Não para manipular preços de forma artificial, mas para evitar choques abruptos que ninguém consegue absorver sem custos elevados.
A geopolítica da energia não é apenas uma questão de oferta e procura. É uma questão de tempo, de ritmo e de transições bem geridas. Tudo o que acontece depressa demais tende a partir alguma coisa pelo caminho.
Num momento em que o mundo já vive sob tensão permanente — guerras regionais, rivalidades estratégicas, crises climáticas e desconfiança institucional — acrescentar uma crise energética mal gerida seria um erro histórico.
O desafio, como quase sempre, será o equilíbrio!
Equilíbrio entre justiça política e estabilidade económica. Entre a libertação de povos e a sustentabilidade de sistemas. Entre a moral e o pragmatismo.
Ignorar esta complexidade seria cair numa leitura simplista da realidade internacional. Uma leitura que conforta no imediato, mas cobra um preço elevado a médio prazo.
Se a queda do regime iraniano acontecer, o mundo terá de provar que aprendeu alguma coisa com as crises anteriores.
Que sabe gerir vitórias sem criar novas derrotas!
Caso contrário, ao provocar desnivelamentos excessivos e disparidades profundas, esta crise poderá ir ainda mais fundo do que imaginamos hoje.
E quando isso acontece, raramente há vencedores claros.
Em geopolítica, como na vida, o problema raramente é a mudança em si. É a forma como se gere a mudança.
E é aí que tudo pode correr muito bem… ou perigosamente mal!
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