Entre a Apatia e a Parolice: Retrato de umas Presidenciais que Mudaram Tudo

23-01-2026


As eleições presidenciais costumam ser algo de "morno" no panorama político português.

Ainda cultural e mentalmente monárquico (especialmente no Norte), o país tende a encarar as eleições para Presidente da República como a entronização de um candidato de consenso. A prova disso é simples: até estas eleições, apenas uma tinha ido à segunda volta.

Não se trata de eleger um Presidente, mas de aclamar um monarca com prazo de validade.

Desta vez foi diferente! O país, num estado de completo marasmo político — que as últimas legislativas disfarçaram, mas ficaram longe de resolver (muito antes pelo contrário) — decidiu utilizar a eleição do Chefe de Estado para se redefinir politicamente.

Estas foram, na minha opinião, as eleições mais marcantes e significativas das últimas décadas em Portugal, porque ditaram o fim de um paradigma político, o fim de uma era e, consequentemente, o início de outra.

O primeiro indicador deixado por estas eleições é claro: a política baseada em partidos, com lealdades, bases eleitorais e votos garantidos, morreu. Os partidos já não influenciam nada nem ninguém. O candidato apoiado pelo Governo, Luís Marques Mendes, foi humilhado (não merecia este fim de vida política), e o outro candidato, embora formalmente apoiado pelo Partido Socialista, mas realisticamente desprezado pela "máquina", venceu. Os partidos históricos da esquerda foram literalmente incinerados.

Os partidos são hoje instituições anacrónicas, ultrapassadas e descredibilizadas que, para o eleitorado atual, representam o pior que a política tem para oferecer.

O mais grave de tudo isto é que toda a estrutura política portuguesa está sustentada e depende de… partidos…

O segundo indicador é que a política passou a organizar-se em torno de outros polos. Se antes era esquerda versus direita, agora é, literalmente, o "estilo" de fazer política que conta. Infelizmente, não são as ideias nem as ideologias — que deveriam dominar a vida e o debate político em todos os seus níveis — mas a forma. Surgem os "intelectuais" da política, os betinhos, apreciadores de uma política com estilo, marca e aparência trendy. Foi assim que António José Seguro venceu: completamente vazio de conteúdo e de estratégia, vendeu-se bem porque teve estilo e postura, não cometeu gafes e evitou disputas baixas.

Do outro lado estão os alarves, os odres, sempre aos gritos contra tudo e todos, incoerentes, capazes de, no mesmo dia, dizer uma estupidez e o seu contrário — o apogeu da iliteracia política, que cresce a cada dia que passa. Pessoas profundamente ignorantes (não disse sem estudos), sem noção dos fundamentos do Estado de Direito democrático, que desconhecem as regras básicas da convivência e os objetivos do que é a verdadeira política. Nunca foi tão simples perceber a percentagem de ignorantes políticos em Portugal: basta ver quem votou no apogeu máximo do ridículo e da alarvice política — André Ventura e os seus discípulos. Porque o sucesso do Chega mais não é do que transformar um partido num culto religioso: não há ideias, mas dogmas; não há adversários, mas infiéis; não há oposição, mas pecado; não há militantes, mas crentes; não há um líder, mas um messias que quer iluminar, com a sua luz divina, todos os cargos do Estado. Mas o povo é quem mais ordena e, mesmo estúpido, alarve e ignorante, continua a ser soberano.

Há ainda uma terceira vaga, ainda com pouca expressão: uma certa intelectualidade elitista, liberal e de direita — os "top voices" do LinkedIn e do empreendedorismo — representada por João Cotrim de Figueiredo que, embora dificilmente chegue ao poder, pode, através de minorias expressivas, funcionar como equilíbrio, como fiel da balança entre os apáticos e os alarves. Veremos até onde este eleitorado pode estender a sua influência. Será sempre minoritário, mas poderá ser muito poderoso e decisivo.

Outro indicador (este positivo) destas eleições é o crescente interesse e participação política. A abstenção desce de eleição para eleição. Isso é bom. Finalmente.

Outro dado revelador: comentadores e sondagens interpretam e analisam o país e o eleitorado tão bem como eu cultivo batatas. Enclausurados nas suas bolhas de intelectualidade e de alto pensamento, não compreendem o país real, o povo, o quotidiano do trabalhador e do cidadão comum. Isto é grave, porque a informação — a verdadeira informação, não a alienada nem a manipulada — é um dos pilares fundamentais da democracia e do Estado de Direito.

Finalmente, o Almirante Gouveia e Melo percebeu, tarde demais, que, não obstante heroísmos e patriotismos que ninguém ousa contestar, a política é para políticos: para quem sabe jogar o jogo, para quem tem "jogo de cintura", e não para militares, muito menos para homens de honra e valores. O Almirante não viu o óbvio: não é possível mergulhar numa fossa e sair de lá limpo!

A segunda volta será, assim, a primeira eleição de uma nova era e de um novo paradigma.

Entre a nulidade apática e amorfa e a parolice ignorante e estúpida, o povo terá de escolher o melhor entre duas desgraças.

Espero que escolha a desgraça que, pelo menos, respeita os direitos básicos da pessoa humana, não põe em causa as bases do Estado de Direito, não ofende o mais elementar bom-senso, sabe distinguir e separar Estado de Religião, come de boca fechada, não atira papéis para o chão, não furta malas, não insulta outras pessoas na casa da democracia e não se comporta como adolescentes a mostrar os beiços a uma deputada da República (ou a quem quer que seja).

A política pode ser quase tudo. Quase. Mas a política — como nada — não deveria ser lugar para pessoas sem nível, sem educação, sem princípios, sem "chá".

Nem na política vale tudo, e a parolice arrogante não vale nada em lado nenhum.

Tem razão muitas vezes? Tem, como todos os relógios parados estão certos duas vezes por dia.

Domingo vou votar. Vou votar na menor das catástrofes…

Entendem agora porque sou monárquico…?


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