CULTURA OU DECADÊNCIA: O DILEMA QUE DEFINE O FUTURO DE PORTUGAL

Portugal encontra-se, mais uma vez, diante de uma encruzilhada silenciosa mas absolutamente decisiva.
Não se trata apenas de uma escolha política ou económica, mas de uma opção civilizacional.
Ou investimos seriamente na cultura, no conhecimento e na formação das pessoas, ou aceitaremos, com resignação perigosa, um caminho de progressiva irrelevância.
A história é clara e implacável neste ponto. As grandes nações não se ergueram apenas com exércitos fortes ou cofres cheios, mas com escolas sólidas, universidades vivas, debate público exigente e uma cultura que formou consciências.
A verdadeira força sempre esteve no que se pensa, no que se cria e no que se transmite.
O problema é que, em Portugal, parece instalar-se um estranho alheamento coletivo. Como se o futuro se resolvesse por inércia, como se o progresso fosse automático. Vemos o tempo passar, as oportunidades sucederem-se, e muitas delas perderem-se por ausência de visão estratégica.
A cultura, demasiadas vezes, é tratada como um adorno dispensável. A educação é encarada como uma obrigação administrativa e não como uma missão nacional. A formação ao longo da vida surge como luxo e não como necessidade básica numa sociedade em permanente transformação.
No entanto, a verdade é simples e desconfortável. Sem conhecimento não há inovação. Sem pensamento crítico não há progresso. Sem cultura não há identidade. Este tripé continua a ser o alicerce invisível de qualquer projeto sério de desenvolvimento duradouro.
Podemos ter portos estratégicos, localização privilegiada, recursos naturais, turismo em crescimento e algum dinamismo empresarial. Tudo isso é relevante, mas nada disso é suficiente se falharmos no essencial: as pessoas.
Um país vale, acima de tudo, pela qualidade humana, intelectual e ética dos seus cidadãos.
O maior recurso de uma nação nunca foi o ouro, o petróleo ou a geografia. Foi sempre o talento das suas gentes, a sua capacidade de pensar, de criar, de questionar e de se adaptar. Quando esse talento é desperdiçado, o futuro entra em modo de racionamento.
A escola deveria ser o primeiro grande laboratório de futuro. E, no entanto, muitas vezes limita-se a cumprir programas, a repetir modelos ultrapassados, a formar para exames e não para a vida.
Falta ambição, falta tempo, falta estratégia de longo prazo.
Os professores continuam a ser heróis silenciosos de um sistema exausto. Trabalham com dedicação, muitas vezes sem meios, sem reconhecimento e com uma carga burocrática que sufoca a missão essencial de ensinar a pensar. Sem professores valorizados, não há reforma educativa que resista.
O ensino superior, por sua vez, luta entre a escassez de financiamento, a precariedade da investigação e a dificuldade em reter talento. Perdemos jovens altamente qualificados para outros países porque não conseguimos oferecer condições mínimas para que fiquem e construam cá o seu futuro.
Entretanto, a desinformação alastra com uma velocidade assustadora. A literacia mediática continua a ser um luxo para poucos. Num mundo dominado por algoritmos, a capacidade de distinguir factos de opiniões tornou-se uma competência de sobrevivência democrática.
A cultura não é apenas artes e espetáculos, embora isso também conte.
A cultura é a forma como debatemos, como discordamos, como respeitamos, como participamos na vida pública. É o tecido invisível que mantém uma sociedade minimamente coesa.
Quando a cultura empobrece, empobrece também a democracia. Cresce o ruído, encolhe o argumento, sobe o insulto, desce a reflexão. E nesse vazio florescem todos os extremismos, populismos e simplificações perigosas.
O papel das artes, da literatura, do teatro, do cinema e da música é muitas vezes subestimado. Mas são esses territórios que alargam a sensibilidade, que abrem perguntas difíceis, que nos ajudam a compreender o outro e a nós próprios.
Há ainda o drama silencioso das assimetrias regionais. O acesso à cultura e à formação continua profundamente desigual entre litoral e interior, entre centros urbanos e territórios esquecidos. Um país que abandona partes de si nunca pode crescer inteiro.
A juventude sente isso na pele. Muitos partem não por aventura, mas por falta de alternativas. Emigram porque o país não lhes oferece condições para sonhar aqui. E cada partida é uma ferida aberta na promessa de futuro.
A formação ao longo da vida é outro dos grandes desafios. Vivemos mais anos, mudamos mais vezes de profissão, enfrentamos tecnologias novas a cada década. Continuar a aprender deixou de ser opção; é uma questão de sobrevivência económica e social.
As empresas que compreenderam isto investem nas pessoas, na qualificação, na criatividade. As que não compreenderam ficam para trás, presas a modelos esgotados.
A economia do século XXI constrói-se sobre conhecimento, não apenas sobre capital.
O Estado tem aqui uma responsabilidade central e insubstituível.
As políticas públicas não podem continuar a ser reféns de ciclos eleitorais curtos. A educação e a cultura exigem continuidade, coerência e visão de décadas, não de legislaturas.
A burocracia, a lentidão administrativa e a falta de articulação entre instituições criam um labirinto onde muitos projetos morrem antes de nascer. O país perde energia em processos e esquece-se de investir nas pessoas.
Vivemos uma revolução tecnológica sem precedentes, mas corremos o risco de a atravessar sem humanismo.
A tecnologia sem ética, sem pensamento crítico e sem cultura apenas acelera os erros. O progresso técnico não substitui a maturidade social.
As comunidades locais continuam a ser espaços decisivos de resistência cultural e de inovação social. É nelas que se preservam saberes, que se criam redes de apoio, que se experimentam soluções à escala humana.
A memória histórica e o património não podem ser tratados como relíquias para turistas. São fundamentos vivos da identidade coletiva. Um povo que despreza a sua história fica mais vulnerável à manipulação do futuro.
A identidade nacional não é um museu fechado, mas também não é uma folha em branco. Constrói-se no diálogo entre tradição e mudança, entre pertença e abertura, entre raízes e horizontes.
Cada cidadão tem também uma quota-parte de responsabilidade. Não podemos continuar a delegar tudo no Estado, nos partidos ou nas instituições. A cultura começa em casa, nas escolhas diárias, na forma como educamos e participamos.
As famílias continuam a ser a primeira escola de valores, de linguagem, de curiosidade intelectual. Quando o ambiente familiar empobrece culturalmente, a escola tem de correr atrás de lacunas quase impossíveis de colmatar.
Os meios de comunicação social desempenham um papel decisivo na qualidade do espaço público. Quando a superficialidade vence a análise, quando o espetáculo substitui o conteúdo, a sociedade vai perdendo ferramentas para compreender a realidade.
A cultura também é economia. As indústrias criativas geram emprego, exportam identidade, dinamizam territórios. Investir na cultura não é despesa; é investimento com retorno social, económico e simbólico.
O risco maior é este: tornarmo-nos um país funcional, mas vazio de sentido, com indicadores aceitáveis e ambições pequenas.
Um país que sobrevive, mas não inspira.
Um país que gere o presente, mas não constrói futuro.
Ainda assim, há sinais de esperança.
Há projetos, há pessoas, há iniciativas que mostram que outro caminho é possível.
Falta escala, falta apoio, falta continuidade.
Mas a matéria-prima existe.
O dilema está lançado com brutal clareza: ou fazemos da cultura e do conhecimento uma prioridade política e social, ou aceitaremos, em silêncio confortável, o declínio lento da nossa relevância coletiva.
O tempo das escolhas adiadas está a esgotar-se.
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