A PERCEPÇÃO É O VERDADEIRO CAMPO DE BATALHA

Vivemos num tempo em que a política já não se faz apenas nos parlamentos, nas cimeiras internacionais ou nas salas de decisão fechadas.
Hoje, a política faz-se, sobretudo, na mente das pessoas, no território invisível das perceções, das emoções e das crenças.
A realidade pode ser dura, complexa e contraditória, mas aquilo que verdadeiramente mobiliza multidões é a forma como essa realidade é sentida e interpretada.
Na lógica implacável da Realpolitik, a perceção vale mais do que a verdade.
Esta frase, desconfortável para quem ainda acredita numa política ancorada em factos sólidos, resume uma das mais cruéis evidências do nosso tempo.
As pessoas não seguem necessariamente o que é comprovado, seguem aquilo em que acreditam.
E acreditar é um ato profundamente emocional, raramente racional.
A verdade, quando não encaixa na narrativa dominante, transforma-se num incómodo. Um obstáculo. Um ruído que se tenta apagar. Torna-se secundária perante a força avassaladora daquilo que conforta, do que confirma preconceitos, do que alimenta medos ou esperanças.
A política aprendeu a explorar este mecanismo com mestria.
A construção da perceção coletiva nunca foi tão rápida, tão eficaz e tão perigosa como agora.
A imprensa, que durante décadas foi vista como guardiã da verdade, tornou-se um dos principais instrumentos de moldagem da realidade. E as redes sociais vieram dar-lhe uma potência sem precedentes, amplificando cada título, cada imagem, cada polémica, à velocidade de um clique.
Há apenas duas décadas, a informação chegava devagar. Era filtrada, lida com alguma distância, digerida ao longo do tempo. Hoje, todos transportamos um jornal no bolso, um canal de opinião permanente no ecrã do telemóvel.
A notícia já não se consome: devora-se.
A velocidade substituiu a reflexão. A repetição substituiu a verificação. A omnipresença da informação criou uma espécie de realidade paralela, em que o essencial já não é o que aconteceu, mas como foi contado e quem o contou primeiro.
Neste novo mundo, a narrativa tornou-se mais poderosa do que o facto. A emoção mais influente do que a prova. E a imagem mais convincente do que qualquer relatório técnico.
É neste terreno que hoje se disputam as grandes batalhas políticas (e não só).
O poder político percebeu isto cedo. E percebeu também que controlar a perceção é, muitas vezes, mais eficaz do que resolver os problemas. Quando as soluções são difíceis, quando as crises se acumulam, quando a economia vacila e os conflitos explodem, surge a tentação maior: gerir a narrativa em vez de enfrentar a realidade.
Se as pessoas acreditarem que está tudo sob controlo, então, para muitos, estará mesmo. Ainda que os indicadores digam o contrário. Ainda que os sinais de colapso se multipliquem. Ainda que as fissuras no sistema sejam cada vez mais visíveis.
Este é o jogo mais perigoso da política contemporânea. Criar uma ilusão de estabilidade para adiar o confronto com a verdade. Uma estabilidade artificial, construída em estúdios de televisão, em comunicados bem ensaiados, em campanhas digitais milimetricamente desenhadas.
O problema é que a realidade, mais cedo ou mais tarde, cobra a fatura.
As ilusões não seguram economias. As narrativas não travam guerras. Os slogans não alimentam famílias. E, quando o choque acontece, é sempre mais violento quanto maior foi a distância entre a perceção e a verdade.
Enquanto isso, os cidadãos, muitas vezes cansados, descrentes e emocionalmente exaustos, tornam-se terreno fértil para a manipulação. A sede de respostas simples num mundo cada vez mais complexo abre portas a discursos fáceis, soluções mágicas e promessas vazias.
A política deixa então de ser um espaço de construção coletiva e transforma-se num espetáculo permanente. Um teatro de sombras onde o que importa não é governar bem, mas parecer que se governa bem.
Neste teatro, a comunicação não serve para informar, mas para condicionar. Não serve para esclarecer, mas para seduzir. Não serve para unir na verdade, mas para dividir na conveniência.
A fronteira entre informação e propaganda torna-se cada vez mais difusa. E o cidadão comum, sem tempo, sem ferramentas críticas e sob constante bombardeamento mediático, vai sendo empurrado de narrativa em narrativa, como quem atravessa uma corrente sem saber nadar.
O mais inquietante é que este processo não se dá de forma violenta à primeira vista. Não há tanques nas ruas, nem censura explícita. Há apenas um fluxo contínuo de mensagens, cuidadosamente calibradas, que moldam o que sentimos, o que tememos, o que esperamos.
E, aos poucos, a perceção transforma-se em realidade subjetiva. Aquilo que sentimos como verdadeiro passa a ser, para nós, verdadeiro, independentemente dos factos. A emoção substitui a razão como critério de decisão política.
É neste contexto que a imprensa enfrenta um dos maiores dilemas da sua história. Ou assume o seu papel crítico, incómodo e independente, ou arrisca-se a transformar-se num mero prolongamento do poder.
As redes sociais, por sua vez, democratizaram a palavra, mas também democratizaram a manipulação. Qualquer pessoa pode informar, mas qualquer pessoa também pode desinformar.
E, num mar de conteúdos, a verdade afunda-se com facilidade.
Tudo isto cria um ambiente perfeito para a engenharia da perceção. Um laboratório social onde se testam medos, se exploram indignações e se fabricam consensos artificiais.
O mais trágico é que nos habituámos a este estado de coisas. Já não esperamos verdades, esperamos versões. Já não exigimos soluções, exigimos narrativas que nos tranquilizem.
Entretanto, os problemas estruturais permanecem. As desigualdades agravam-se. As tensões internacionais aumentam. As instituições perdem credibilidade. Mas a perceção cuidadosamente trabalhada diz-nos que está tudo controlado.
É aqui que reside o maior perigo coletivo. Caminhar para o precipício convencidos de que estamos numa planície segura. Avançar para o colapso embalados por discursos tranquilizadores.
A história ensina-nos que todas as grandes quedas foram precedidas por grandes ilusões. Nada cai de repente. Primeiro constrói-se a narrativa da normalidade. Depois ignora-se o alarme. Por fim, quando já não há como negar, a queda torna-se inevitável.
A perceção, quando usada como arma política, destrói lentamente a capacidade de pensar criticamente. E uma sociedade que abdica do pensamento crítico abdica, sem perceber, da sua própria liberdade.
Não se trata apenas de esquerda ou de direita, de governos ou de oposições. Trata-se de um sistema inteiro que aprendeu a viver da aparência, da encenação e da manipulação emocional.
Recuperar a centralidade da verdade é hoje um ato de resistência. Questionar a narrativa dominante tornou-se um exercício de cidadania. Desconfiar do que parece demasiado simples é uma forma de lucidez.
Num mundo onde a perceção governa, pensar é um ato subversivo. E talvez seja exatamente disso que mais precisamos: menos versões, mais factos; menos emoção fabricada, mais consciência crítica.
Porque quando a perceção se torna mais importante do que a verdade, já não estamos apenas a falar de política.
Estamos a falar do próprio destino das sociedades.
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