A NEGAÇÃO DO ÓBVIO: UM PAÍS QUE FINGE NÃO VER O QUE ESTÁ À SUA FRENTE

Confesso, sem rodeios, que há poucas coisas que me perturbam tanto como a negação do óbvio.
Não falo de divergências ideológicas, nem de leituras diferentes da realidade — isso faz parte de qualquer sociedade saudável. Falo, sim, de quando os factos estão à vista de todos e, ainda assim, se insiste em ignorá-los.
É precisamente isso que sinto quando olho para o estado do país. Há um discurso repetido, quase automático, que insiste em pintar um cenário de estabilidade e progresso. Mas depois há os números. E os números, esses, não mentem.
Quando, em apenas uma década, os crimes económicos e financeiros aumentam 154%, algo está profundamente errado. Não é um desvio estatístico. Não é um acaso. É um sinal claro de que há um problema estrutural que ninguém quer enfrentar de frente.
Estamos a falar de um aumento para mais do dobro — duas vezes e meia, para sermos rigorosos — face ao que existia há dez anos. Isto não acontece num país saudável. Não acontece num sistema que funcione de forma equilibrada.
E, no entanto, continua-se a falar de progresso como se estes dados não existissem. Como se fossem irrelevantes. Como se não dissessem nada sobre o rumo que estamos a seguir.
Importa perceber uma coisa essencial: os crimes económicos e financeiros não surgem do nada. Não são apenas fruto de ganância individual ou falta de ética. São, antes de mais, sintomas.
Sintomas de um ambiente económico e fiscal que está doente. Um ambiente que, em vez de incentivar a criação de valor, acaba por a sufocar.
Quando o sistema fiscal é percepcionado como opressivo, estrangulador e desincentivador, cria-se um terreno fértil para comportamentos desviantes. Não por virtude, mas por sobrevivência.
Ninguém, em consciência, decide arriscar-se à evasão fiscal se sentir que o seu contributo é justo e bem aplicado. As pessoas não procuram fugir às regras quando sentem que fazem parte de um sistema que funciona.
O problema começa quando esse sentimento desaparece. Quando se instala a ideia de injustiça. Quando quem cumpre sente que é penalizado.
E pior ainda, quando quem tenta competir num mercado global percebe que está em clara desvantagem. Não por falta de competência, mas por excesso de carga.
É aqui que muitos começam a sentir que não têm alternativa. Que, para sobreviver, têm de jogar fora das regras. Não porque queiram, mas porque sentem que o jogo está viciado.
E é precisamente isto que os sucessivos governos parecem não compreender. O básico dos básicos.
Aumentar a incidência fiscal não significa, automaticamente, aumentar a receita. Pelo contrário, muitas vezes tem o efeito oposto.
Quando se pressiona demasiado, a resposta natural é a retração. Ou, em muitos casos, o desvio para a economia paralela.
É um princípio simples. Quase intuitivo. E, ainda assim, parece escapar a quem decide.
A economia paralela cresce precisamente onde o sistema formal deixa de ser viável. Não é um acaso. É uma consequência.
E com isso perde o Estado, perdem as empresas e perdem os cidadãos. Todos, sem exceção.
Entretanto, o capital — aquele de que tanto precisamos — começa a fugir. Procura ambientes mais previsíveis, mais justos, mais competitivos.
E o país, inevitavelmente, empobrece. Não de forma imediata, mas de forma consistente e acumulada.
Entramos num ciclo de crises sucessivas, muitas vezes tratadas como episódios isolados, quando na verdade fazem parte de um padrão.
As estruturas básicas do Estado começam a ressentir-se. Falta investimento, falta capacidade, falta visão.
Ao mesmo tempo, os cidadãos sentem no dia-a-dia o peso destas decisões. O poder de compra diminui. As dificuldades aumentam.
A crise da habitação é apenas um dos rostos mais visíveis desta realidade. Mas está longe de ser o único.
Praticamente todos os setores de atividade mostram sinais de tensão. Uns mais visíveis, outros mais silenciosos.
E, no meio disto tudo, continuamos a ouvir discursos que insistem em negar o que é evidente.
Não é uma questão de pessimismo. É uma questão de lucidez. De olhar para os factos sem filtros.
Infelizmente, o que vemos são decisões políticas que revelam uma preocupante falta de compreensão da realidade económica.
Uma mediocridade que não é apenas técnica, mas também estratégica.
E essa mediocridade tem consequências. Consequências que se acumulam e que, a prazo, se tornam difíceis de reverter.
Portugal está a ser conduzido por um caminho perigoso. Um caminho que pode levar a um ponto de não retorno.
Não por falta de talento, nem por falta de recursos. Mas por falta de clareza, coragem e competência.
E é isso, talvez, o mais inquietante de tudo.
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