A DERROTA DA UCRÂNIA !

28-02-2024


... e passaram 2 anos desde a invasão Russa da Ucrânia.

Inacreditável...

Em janeiro de 2022 eu jurava que os pretensos exercícios militares que a Rússia fazia na fronteira com a Ucrânia eram um bluf para lembrar tanto à Ucrânia, como à NATO, como, principalmente, aos Estados Unidos, o que tinha ficado acordado no Memorando de Budapeste de 1994 em que se declarou solenemente que a Ucrânia nunca entraria na NATO, assim como nunca seria ameaçada pela Rússia, devolvendo a esta todo o arsenal nuclear e tornando-se, em suma, um Estado neutral.

Sempre acreditei que os Estados Unidos recuariam, já que a Rússia não poderia recuar, porque a adesão da Ucrânia à Aliança Atlântica, literalmente, ameaçaria o seu acesso ao Mar Negro e, com isso, a quase 90% da sua capacidade de importar e exportar mercadorias, algo impensável do ponto de vista geopolítico e geoestratégico.

Os Estados Unidos não recuaram e eu não me lembrei que Putin, antes de ser Presidente da Federação Russa é um "Tcheka", um KGB, por isso não faz bluf, nunca.

E assim a Ucrânia foi invadida.

Depois acreditei que a disparidade de forças era tão grande que a Rússia, em 3 ou 4 semanas, levaria o povo ucraniano e o seu Presidente, Volodymyr Zelensky, um comediante feito, primeiro Presidente, depois herói, a capitular e a guerra entraria numa fase "fria", como aconteceu com a invasão da Crimeia em 2014.

Também me enganei.

Por um lado, as Forças Armadas Russas são vítimas de anos de inércia, corrupção e burocracia tendo demonstrado que, se na teoria, são um colosso bélico, na prática, como todas as "grandes potencias", são um mecanismo obeso e ineficaz, vítima da sua própria magnitude e que, no terreno, na realidade, em batalha, são completamente ineficazes, inoperantes e incompetentes.

Por outro lado, ninguém se lembrou da "fibra" do povo ucraniano, demonstrado durante séculos.

Bravos, estóicos, resilientes, obstinados, heróicos, patriotas, são capazes de tudo para defender a sua terra, a glória da sua Ucrânia.

E, assim, umas Forças Armadas quase amadoras travaram e impediram a vitória de uma das maiores e mais temidas Forças Armadas do mundo.

E o conflito entrou num impasse.

Nem a Rússia vencia, nem a Ucrânia perdia.

Batalha depois de batalha, cidades, vilas, aldeias foram arrasadas, destruídas, aniquiladas;

Crianças, mulheres, idosos fugiram num êxodo não visto desde a IIª Guerra Mundial e os que não puderam fugir foram massacrados, assassinados, exterminados.

Perante este horror humanitário sempre pensei, e acreditei mesmo, que o Ocidente, especialmente a União Europeia, que, para além de mais, com este conflito e logo depois da crise do COVID 19, mergulhava numa crise económica imensa, encontraria uma solução para o conflito, uma saída negocial, diplomática, honrosa para ambas as partes, enfim, a paz.

Escrevi várias vezes que o povo europeu sofreria com um inverno, padeceria com o segundo, não resistiria ao terceiro tal seria a crise económica e financeira gerada pela continuidade do conflito.

Mas os políticos europeus mostraram, em definitivo, o que são: prepotentes, incompetentes, impotentes.

Vladimir Putin, beneficiando de um regime de que é dono e senhor, sem oposição que lhe exija justificações, faz o que quer e tudo pode.

Para além de mais e como todos sabem, é um estratega astuto, inteligente, frio, calculista, impiedoso e insensível, focado, unicamente, no seu próprio orgulho e na sua perpetuação no poder não olhando a meios para atingir esses fins.

Assim, quando viu que a sua esperada "vitória relâmpago" não estava a resultar depressa modificou a sua ação para a estratégia inversa: a guerra do desgaste.

E assim estamos, há 2 anos, num conflito morno, de batalhas pírricas, de avanços e retrocessos que se medem a metro, sem fim à vista, sem solução vislumbrada.

E, dia depois de dia, a Ucrânia perde cidades, casas, fábricas, campos, infraestruturas, recursos, capacidade produtiva, perde toda uma geração de jovens que tombam na frente de combate, perde a esperança.

As escolas estão paradas comprometendo as futuras gerações, os idosos e doentes morrem, em silencio e desespero, por falta de assistência, a natalidade é quase nula e o êxodo não para porque cada vez mais ninguém acredita na vitória nem tão pouco na paz.

Temos que admitir que Putin, ao transformar esta guerra num conflito de desgaste e conseguindo manter a pressão 2 anos consecutivos sobre o território e as forças ucranianas consegui, só por isso, a vitória.

E todos os sinais e indicadores demonstram que, com o território russo quase intacto, logo a sua força produtiva só ligeiramente afetada, a capacidade de continuar a "alimentar" a "máquina de guerra" Russa possibilitará a continuidade do conflito por tempo indeterminado.

Se, a este facto, somarmos o apoio que a Rússia beneficia da China, do Irão, da Coreia do Norte e, embora, veladamente, da Índia e de muitos países africanos pode-se prever uma guerra para muitos anos.

É muito mais provável o fim do conflito por razões políticas internas russas (a morte ou destituição de Putin, por exemplo) do que por ações militares conseguidas na Área de Operações.

Porque mesmo que as Forças Russas retirassem hoje e desenvolvessem à Ucrânia tudo o que conquistaram (o que, por certo, e tendo em conta a situação no terreno, não irá acontecer) a vitória russa está assegurada.

Porquê?

O que resta da Ucrânia depois de 2 anos de conflito?

Quanto tempo o país demorará a recuperar, a reconstruir-se?

Quanto tempo e quanto dinheiro serão necessários para reconstruir o básico como hospitais, escolas, vias de comunicação, centrais elétricas, barragens, pontes, saneamento, rede elétrica, habitações?

Quanto tempo e dinheiro serão necessários para reorganizar a função pública, os serviços do Estado, a estrutura política?

Que esforços e dinâmicas serão necessárias para restabelecer a economia, a produtividade, a geração de valor, a indústria, o comercio, o desenvolvimento?

Quando tempo demorará a retirar os milhões de minas terrestres e explosivos remanescentes de guerra espalhados por toda a Ucrânia?

Quando voltará a Ucrânia, devastada pela guerra, com milhares de milhões em divida contraída para manter o conflito, a ter uma balança orçamental equilibrada, estabilidade cambial, liquidez financeira?

Mas, fundamentalmente, quem substituirá a mão-de-obra, o talento, o empreendedorismo, a dinâmica de toda uma juventude que morreu na frente de batalha?

A Ucrânia já perdeu!

Falta saber quando capitulará.

O objetivo de Putin era impedir que a Ucrânia entrasse para a NATO e, se possível, para a União Europeia.

Ora: nas condições em que a Ucrânia, a todos os níveis, se encontra, quantas décadas demorará para atingir os requisitos mínimos de adesão a estas duas organizações?

Até pode ser admitida pro forma, como ponto de honra, como simbolismo diplomático, como membro honoris causa.

Mas quanto tempo demorará para a economia ucraniana conseguir atingir os critérios de estabilidade exigidos para aderir ao mercado único e ao Euro (sem os por em risco de colapso) e quando estará a Ucrânia preparada, imersa num processo de reconstrução total, para dispor de 2% do PIB para defesa como exige os critérios de entrada na NATO?

Em ambos os casos só daqui a décadas.

Por isso, mesmo sem vencer, a Rússia já ganhou, porque garantiu os seus 2 principais objetivos.

Em rigor o conflito só se mantem, primeiro por orgulho de Putin e do seu regime e, em segundo, porque as conquistas da Rússia foram tão significativas (embora o ocidente as tente menosprezar) que valem a pena a continuidade do conflito.

Mas a culpa de toda esta situação não é da Ucrânia nem dos Ucranianos que, heroicamente, defendem a sua pátria.

A culpa é de um Ocidente inapto e cobarde, dirigido por políticos hipócritas e incompetentes, que tem tanto de ignorantes como de arrogantes que, em 2 anos, não conseguiram encontrar uma solução realista e viável para um conflito que, se não provocaram, também não evitaram.

A guerra da Ucrânia é o exemplo claro da hipocrisia política do ocidente que, jurando defender a paz, a liberdade e a democracia, de facto, cada país só promove as suas "agendas internas".

Só assim se explica, por exemplo, que embora a Rússia seja alvo das mais duras sanções económicas de que há memória o impacto no PIB foi de pouco mais de 2% desde que começou o conflito e que a afetação do seu comercio externo (inclusive com a União Europeia) foi, igualmente, residual (em alguns casos até aumentou).

Outro fator a ter em consideração, e que também é um efeito direto desta "guerra de desgaste", é o cansaço da opinião pública e, consequentemente, do eleitorado ocidental, em especial o europeu, em relação à guerra da Ucrânia.

Com o conflito a gerar taxas de inflação que não se viam há décadas, aumentos abismais das taxas de juro, diminuição do poder de compra, empobrecimento em especial da classe média (logo a "força" contributiva dos Estados), os Europeus começam a não ter capacidade, e muitos deles também vontade e ânimo, para continuar a apoiar uma causa de que muitos já se cansaram e outros tantos consideram perdida.

E começam a surgir os populistas, os radicalismos, os extremismos…

Completamente destruída, sem população ativa, sem quadros técnicos, altamente endividada, a perder apoio externo e com um inimigo capaz de arrastar o conflito por anos, qual o futuro que aguarda a heróica, mas martirizada Ucrânia?

Sinceramente não sei!

Mas as perspectivas não são boas!

Mas de uma coisa eu tenho a certeza: a necessidade urgente e imperiosa de paz !

É preciso parar o conflito!

Nem que para isso se tenha de "engolir" orgulhos políticos e dignidades diplomáticas, nem que para isso se tenha de abrir precedentes arriscados e fazer concessões amargas.

Uma coisa eu sei: crianças não podem continuar a morrer, jovens não podem continuar a ser massacrados, idosos não podem continuar a passar os seus últimos dias em condições desumanas.

O que vale mais: a vitória ou a paz?

A vitória ou a derrota gera louros ou desgraça a ministros e generais, a paz ou a guerra traz vida ou morte ao povo e aos combatentes.

O que vale mais: a gloriosa vitória dos políticos ou a vida tranquila do povo?

De que vale continuar a lutar por uma Ucrânia que, no fim do conflito, será uma imensidão deserta, inabitada e silenciosa, um vale de morte e de desespero?

Vale a pena aniquilar a Ucrânia para se salvar a Ucrânia?

Vladimir Putin, não é um deus, embora, acredito, quisesse muito ser.

Um dia não passará de mais uma menção vergonhosa na história da Rússia.

Mas a Ucrânia e o seu povo são para sempre e já provaram, mais do que uma vez, que são capazes de se reinventar e reerguer.

Em política real, muitas vezes, temos de saber sacrificar o presente para garantir a possibilidade de um futuro.

É preciso realismo, frieza e estratégia para resolver o conflito e definir, uma vez por todas, que o objetivo é a paz e somente a paz.

A história, essa impiedosa justiceira, será a única que decidirá vitórias e derrotas, honras e humilhações, ganhos e perdas.

Vamos lutar pela paz porque só na paz conseguiremos encontrar a única e definitiva vitória.


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